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Homofobia à direita


Até as areias da engorda da praia de Ponta Negra sabem que a direita potiguar nunca levantou a bandeira contra a homofobia. Mas agora, a coisa mudou. De uma hora para outra, figuras que sempre trataram a pauta LGBTQIA+ com descaso — quando não com escárnio — surgem como paladinos da justiça, clamando por prisão, justiça e moralidade. Só que não é bem o amor ao próximo que move essa súbita conversão. O que está em jogo, como quase sempre, é poder.

O caso é o seguinte: um auditor fiscal aposentado foi preso em Natal, acusado de ameaçar o próprio filho de morte por ele ser gay. Um caso de violência simbólica e concreta, envolvendo não só homofobia, mas também uma tragédia familiar. Eis que dias após a prisão, um secretário de Estado — isso mesmo, um gestor público — correu para as redes sociais pedindo a soltura do acusado. Por quê? Porque ele é idoso. Comovente argumento, não fosse a completa ausência de base jurídica e ética para tal intervenção. Um secretário pedindo abertamente, via Instagram, que um preso acusado de crime grave seja solto. Parece ficção, mas é só o Rio Grande do Norte em 2025.

A reação foi rápida. Mas o mais curioso não foi a crítica ao secretário por possível advocacia administrativa ou violação ética — críticas válidas, diga-se. O que chamou atenção foi o coro indignado vindo da direita mais radical, bradando contra o “defensor de homofóbico”, como se, de repente, tivessem descoberto que homofobia é crime. Sim, a mesma direita que questiona decisões do STF, que vive dizendo que “não se pode mais nem opinar” e que adora relativizar os direitos das minorias, agora está em fúria. Não contra o crime, mas contra quem ousou pedir a soltura do criminoso. Tudo muito conveniente.

É preciso rir para não chorar. Não estamos diante de um surto ético. O que há é um movimento tático. O caso do auditor virou pretexto para atacar o governo estadual. A bandeira da homofobia, por ironia da história, foi içada por aqueles que sempre a deixaram rasgada ao vento. Como disse Foucault, “o poder não é uma coisa que se conquista, mas uma rede de relações que se articula por todos os lados”. E é isso que está em curso: a articulação da indignação seletiva como ferramenta política.

De repente, o auditor virou símbolo. Não do combate à homofobia — que continua sendo ignorada nas periferias, nas escolas, nas delegacias. Mas do desgaste que se pode impor ao governo por meio da exposição pública de um erro político. O problema não é o crime, é o capital político que ele oferece.

Aliás, se fosse um militante de esquerda o autor da ameaça, estariam pedindo o cancelamento em praça pública, com direito a faixas, outdoor e vídeo indignado no YouTube. Mas como o agressor encaixa no perfil “cidadão de bem”, a prisão virou um escândalo. E o mais trágico: ao invés de proteger a vítima — um jovem ameaçado por ser quem é — muitos preferem proteger o agressor, sob o véu da conveniência política.

No fim, não há defesa real da dignidade humana. Há apenas cálculo. E o cálculo da direita é simples: se puder usar o tema da homofobia para desestabilizar o governo, ótimo. Mas amanhã, se for pra rasgar a criminalização da homofobia em nome da “liberdade de expressão”, farão isso sem corar.

Como diria Bertolt Brecht, “o pior analfabeto é o analfabeto político, ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele vive à margem da vida”. Mas talvez ainda pior seja o alfabetizado político que se vale da dor alheia para brincar de jogo de tabuleiro institucional. E, nesse caso, a ficha caiu.

Por Eugênio Bezerra 

Blog Antenado 

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